Introdução
A transição energética constitui um dos principais pilares da agenda político-económica internacional, impulsionada pela urgência de mitigar as alterações climáticas, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e promover modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.
Em Portugal, o terceiro setor — compreendendo Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), organizações não-governamentais (ONG), cooperativas, associações e fundações — desempenha um papel crucial na coesão social, na prestação de serviços de proximidade e no apoio a populações vulneráveis. Estas entidades atuam em áreas como a ação social, a saúde, a educação, a cultura e o desenvolvimento comunitário, constituindo uma rede de agentes de sensibilização e de demonstração de boas práticas de sustentabilidade.
Investir na Transição Energética no Terceiro Setor: um trabalho conjunto
A transição energética no terceiro setor exige uma abordagem integrada e colaborativa, capaz de articular esforços entre as organizações sociais, o setor público e as agências de energia. A complexidade dos desafios energéticos — desde a necessidade de reduzir consumos e modernizar infraestruturas até ao acesso a modelos de financiamento adequados — torna evidente que nenhuma entidade, isoladamente, possui todos os recursos e competências necessárias, desde a prática e do “saber-fazer” até à disponibilidade de investimento, de forma a promover uma mudança estrutural.
As agências de energia desempenham uma função fundamental enquanto centros de conhecimento técnico, oferecendo formação e avaliação especializadas. A sua experiência em auditorias energéticas, gestão de projetos, identificação de soluções de eficiência e promoção de energias renováveis permite traduzir metas estratégicas em intervenções concretas, adaptadas às características e limitações das IPSS, ONG, cooperativas e fundações. Estas entidades do terceiro setor, frequentemente com infraestruturas antigas e recursos humanos limitados, beneficiam da orientação especializada das agências de energia para definir prioridades de investimento e garantir que as ações implementadas são técnica e financeiramente vantajosas.
O setor público, por sua vez, é essencial enquanto promotor de políticas, estabelecendo tanto o enquadramento técnico e regulamentar como os instrumentos de apoio financeiro. Cabe a este setor criar condições para que a transição energética seja acessível e exequível para organizações que, pela sua natureza social e sem fins lucrativos, enfrentam limitações de capital e dependem de financiamentos externos. Programas de incentivo e estratégias baseadas nas necessidades reais do território são elementos críticos para garantir que a transição energética não se torne num fator de desigualdade entre entidades com capacidades distintas. Além disso, o setor público tem a responsabilidade de assegurar a promoção de sinergias entre as diversas entidades, conduzindo assim a um maior senso de comunidade.
As instituições do terceiro setor representam o eixo central desta colaboração, não apenas enquanto beneficiárias das intervenções, mas também como agentes de mudança social. O seu contacto direto com comunidades vulneráveis confere-lhes capacidade de sensibilização e de demonstração de soluções sustentáveis. Ao adotarem práticas de eficiência energética e energias renováveis, estas organizações tornam-se exemplos concretos da viabilidade e relevância da descarbonização, contribuindo para a literacia energética e coesão social.
Conclusão
A transição energética no terceiro setor deve ser encarada como uma oportunidade estratégica para elevar a sua eficiência operacional e reforçar a sua sustentabilidade económica, enquanto contribui ainda para os objetivos ambientais nacionais e europeus. O sucesso desta transformação dependerá, em grande parte, da continuidade do trabalho conjunto e da capacidade de integrar conhecimentos técnicos, aliada à visão política e compromisso social. Apenas através desta convergência será possível assegurar que o terceiro setor se torna um protagonista ativo na construção de um futuro mais sustentável, resiliente e inclusivo para a sociedade portuguesa.
O presidente da RNAE,
Carlos Santos