O RAISE Final Summit marcou o encerramento de um percurso coletivo que reuniu representantes do setor público, financeiro, empresarial e da sociedade civil em torno de um objetivo comum: acelerar a transição energética em Portugal através de maior articulação entre investimento, colaboração e inovação.
Realizado na Culturgest, no dia 27 de fevereiro de 2026, o evento constituiu simultaneamente um momento de balanço e de projeção estratégica. Mais do que apresentar conclusões, procurou consolidar aprendizagens, identificar bloqueios estruturais e reforçar compromissos para uma ação coordenada e eficaz. A mensagem transversal foi clara: a ambição existe, o capital está disponível, o desafio está na execução.
O evento contou com a participação de cerca de 70 cidadãos e 14 oradores.
Capital disponível, necessidade de melhores condições de implementação
Na sessão de abertura, Paulo Lima, do Caixa Banco de Investimento, destacou que o setor financeiro reconhece a transição energética como prioridade estratégica e dispõe de instrumentos para a apoiar. Contudo, sublinhou que a concretização de projetos continua a enfrentar obstáculos ao nível da estruturação técnica, da mitigação de risco e da previsibilidade regulatória. A estabilidade das regras e a simplificação administrativa são fatores determinantes para transformar intenção em investimento efetivo e escalável.
Também na abertura, Ana Tapadinhas, da DECO, reforçou que a transição energética só será bem-sucedida se for socialmente justa. A proteção do consumidor, o combate à pobreza energética e a simplificação do acesso aos programas de apoio são condições essenciais para garantir que a transformação chega às famílias e não aprofunda desigualdades existentes.
RAISE em Perspetiva: financiando a transição com impacto
Na sessão “RAISE em Perspetiva”, Filipe Vasconcelos, da The Equator Company, destacou que o RAISE é mais do que um projeto: é um catalisador da transição energética em Portugal, tendo construido sinergias, promovido diálogo estruturado e criado pontes entre setores que tradicionalmente operam de forma fragmentada. De acordo com o orador, o projeto demonstrou que, quando existe articulação entre indústria, setor financeiro, entidades públicas e sociedade civil, é possível identificar soluções concretas e acionáveis, transformando-as em instrumentos permanentes de cooperação para o futuro.
Seis setores, desafios distintos, convergência estrutural
A sessão “Onde Estamos, Para Onde Vamos?” evidenciou o trabalho desenvolvido pelos seis Grupos de Trabalho do projeto, refletindo a complexidade da transição energética e a necessidade de abordagens setoriais articuladas.
No setor da indústria, Cláudia Carocha, do BCSD Portugal, enfatizou a urgência de maior previsibilidade regulatória e de instrumentos financeiros adaptados à realidade das PME. A simplificação de processos de licenciamento e o alinhamento entre política energética e política industrial foram identificados como determinantes para reforçar competitividade e atrair investimento produtivo.
No âmbito do setor público, Ana Rita Antunes, da Coopérnico, destacou o papel estruturante do investimento público como catalisador da transformação, nomeadamente na reabilitação de edifícios, na eficiência energética e em programas com impacto direto no combate à pobreza energética. A capacitação técnica das entidades públicas e a melhor articulação entre níveis de governação surgiram como prioridades claras.
No setor do turismo, Luís Coito, do Turismo de Portugal, evidenciou a sustentabilidade como fator de diferenciação competitiva. A eficiência energética, a integração de renováveis e a gestão inteligente de recursos representam oportunidades significativas, mas exigem instrumentos financeiros ajustados à realidade das micro e pequenas empresas e reforço da capacitação técnica.
Na habitação, Fernanda Santos, da DECO, reiterou a necessidade de enfrentar a pobreza energética estrutural que afeta uma parte relevante da população. Simplificar candidaturas, reduzir barreiras administrativas e reforçar a literacia energética são passos essenciais para aumentar a taxa de execução dos programas e garantir impacto real na qualidade de vida das famílias.
No mercado das renováveis, Susana Camacho, da S.Energia, revelou que os principais entraves identificados prendem-se com processos de licenciamento morosos, limitações da rede elétrica e necessidade de maior coordenação institucional. Foi defendida uma abordagem de simplificação administrativa que permita acelerar projetos, mantendo rigor técnico e ambiental.
Por fim, no terceiro setor, Jorge Antunes, da Associação de Municípios da Cova da Beira, destacou o papel deste setor na dinamização de soluções locais e na proximidade às comunidades. Foram, contudo, assinaladas dificuldades no acesso a financiamento e na adequação dos instrumentos existentes à realidade das organizações sociais, reforçando a necessidade de mecanismos mais flexíveis e inclusivos.
Apesar das especificidades setoriais, todos os oradores concordaram que simplificação, estabilidade regulatória, capacitação técnica e colaboração estruturada são condições transversais para acelerar a transformação energética.
A Transição Energética como Marca da Nova Geopolítica
A mesa-redonda evidenciou que a transição energética ultrapassa hoje o domínio ambiental e económico, afirmando-se como um eixo estruturante da nova geopolítica. A energia tornou-se sinónimo de soberania, segurança e competitividade, num contexto internacional marcado por instabilidade, reconfiguração de alianças e disputas por recursos estratégicos.
Joana Appleton, da Floene, associada à maior empresa de implementação de redes subterrâneas de gás em Portugal, sublinhou que a soberania energética depende da resiliência do sistema. Essa resiliência constrói-se com diversificação de fontes, reforço de infraestruturas e valorização de recursos internos, como a energia proveniente de resíduos sólidos urbanos e lamas. Num cenário de transição, o aproveitamento eficiente destes recursos pode reduzir dependências externas e aumentar a autonomia nacional. Alertou ainda para o impacto das mudanças políticas na confiança dos investidores, salientando que a instabilidade regulatória e estratégica condiciona decisões de longo prazo e afeta tanto o investimento interno como o externo.
João Macedo, da Akuo, trouxe uma perspetiva pragmática: as energias renováveis são hoje, em muitos contextos, as mais económicas de produzir. Ainda assim, persiste dificuldade em acelerar a transição. O principal desafio reside no armazenamento e na gestão da intermitência. Sem soluções robustas de armazenamento e maior flexibilidade de rede, o potencial das renováveis permanece limitado. A volatilidade dos preços da energia foi igualmente apontada como fator de instabilidade, afetando a previsibilidade necessária para decisões industriais e estratégicas.
Por sua vez, António Coutinho, da EDP Inovação, reforçou a ideia de que a energia é um instrumento de poder. A recente substituição do gás russo por gás proveniente dos Estados Unidos demonstra que as dependências energéticas não desaparecem, transformam-se. Referiu também o exemplo da China que, perante limitações no acesso ao gás, respondeu com uma forte aposta na eletrificação e na diversificação tecnológica, evidenciando uma estratégia industrial alinhada com objetivos energéticos.
No que respeita a Portugal, foi reconhecido que o país dispõe de condições naturais excecionais para liderar na produção de energia limpa, mas persiste um problema estrutural de competitividade.
A discussão, moderada por Filipa Pantaleão, do BCSD Portugal, evoluiu para uma reflexão mais ampla: estará o problema centrado exclusivamente no preço da eletricidade ou também no nível de salários e no custo de vida? Mais do que um fenómeno isolado de pobreza energética, foi apontada a existência de uma fragilidade estrutural associada a rendimentos baixos e a um Estado social menos robusto.
Foi igualmente questionado o modelo de investimento público. Parte dos apoios destinados à substituição de equipamentos com vida útil limitada poderia, segundo alguns intervenientes, ser orientada para infraestruturas estruturantes e de longo prazo, como a eletrificação subterrânea, com benefícios mais abrangentes e duradouros. A necessidade de garantir potência e estabilidade ao sistema energético é debatida há mais de duas décadas, mas continua por consolidar numa estratégia industrial clara e integrada.
A conclusão comum foi inequívoca: a transição energética é uma questão de soberania, estratégia económica e justiça social. Portugal tem os recursos e as condições naturais para se afirmar, mas precisa de estabilidade regulatória, visão de longo prazo e políticas integradas que transformem potencial em vantagem competitiva efetiva.
Encerramento: capacitar, simplificar, executar
Na sessão de encerramento, Carlos Santos, da RNAE, sublinhou a importância da capacitação técnica e da proximidade territorial para garantir que as políticas se traduzem em resultados concretos no terreno. Destacou o papel das redes de cooperação e do apoio técnico contínuo às entidades locais como elementos essenciais para assegurar execução eficaz e impacto duradouro.
Um legado que se projeta no futuro
O RAISE Final Summit assinalou o encerramento formal do projeto, mas não o fim da sua missão. Ao longo do seu percurso, o RAISE demonstrou que é possível criar pontes entre setores, promover diálogo estruturado e gerar propostas concretas para ultrapassar bloqueios persistentes na transição energética.
Mais do que recomendações, o projeto deixa um modelo de cooperação e uma comunidade colaborativa ativa, capaz de alinhar investimento, política pública e ação empresarial em torno de objetivos comuns.
Num contexto em que os desafios ambientais, económicos e geopolíticos se entrelaçam, o legado do RAISE é inequívoco: a transição energética só avança de forma consistente quando deixa de ser tratada como uma agenda isolada e se assume como um compromisso coletivo, alicerçado em visão estratégica, estabilidade regulatória e capacidade concreta de execução.